Microrregião de Palmas/PR precisa reconfigurar economia para redução das desigualdades

Por Guilherme Zimermann sexta-feira, 11 ago 2017 15:02 PM

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O Campus Palmas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR) sediou nesta semana o lançamento de dois livros, além de uma fórum de debates em torno da segurança alimentar, relações entre produção e consumo e as consequências sociais da concentração de renda em volta do agronegócio e do mercado das commodities.

A pesquisadora Maria Leticia Barbosa Xavier apresentou o livro “O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) nas Cooperativas Catarinenses”, fruto de sua dissertação de mestrado, cujas pesquisas abordaram, principalmente, localidades do Oeste de Santa Catarina, região que apresenta características muito similares ao Sudoeste e Sul do Paraná.

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Ela avalia que o PAA é uma importante ferramenta de geração de renda, de expansão produtiva e de inclusão social dos agricultores familiares, por outro lado, lamenta os cortes em verbas destinadas a programas sociais, citando o exemplo do Paraná, que teve reduzido em 50% o valor repassado pelo PAA.

Porém, cita que os bons resultados apresentados, fizeram com que muitas prefeituras criassem modelos próprios de programas de aquisição de alimentos, contribuindo para a manutenção de cooperativas e a permanência do pequeno agricultor no campo.

No evento também foi lançado o livro “Evolução do Sistema Agroalimentar Mundial: Contradições e Desafios”, do professor do Programa de Pós Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Nilson de Paula. Com o objetivo de apresentar as tendências estruturais do sistema agroalimentar, o livro reúne temas relacionados à segurança alimentar, debatendo os problemas que as transformações do agronegócio podem trazer à qualidade dos alimentos consumidos em todo o mundo.

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Explica o professor, que a obra também destaca os desdobramentos da crise alimentar e as discussões em torno da atual ordem alimentar mundial e as possíveis soluções para esses problemas. “É uma discussão aberta, pois existem várias visões, e eu coloco no trabalho algumas perspectivas, tendo em mente o empobrecimento da população, as evidências de fome e subnutrição em vários países, ao mesmo em que temos um sistema agroalimentar extremamente dinâmico”, considera.

Em torno situação do Brasil, que mesmo fora do Mapa da Fome elaborado pela ONU (Organização das Nações Unidas), ainda tem cerca de 7 milhões de pessoas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em situação de insegurança alimentar, de Paula aponta as inúmeras desigualdades encontradas no país, que podem aumentar ainda mais diante do modelo de gestão adotado pelo governo. “Há uma tendência de aumento dessa desigualdade, dada a orientação de polícia econômica, de redução do Estado, de resolver as contas públicas à marteladas, e isso vai se refletir de maneira negativa do ponto de vista da qualidade de vida”, analisa.

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Por outro lado, o professor ressalta a força do agronegócio brasileiro e sua ampla participação no mercado internacional, buscando cada vez mais se tornar competitivo, deixando de lado as preocupações com o alimento que chega à mesa do população.

Sobre esse ponto, o docente faz uma análise da realidade socioeconômica da microrregião de Palmas, composta por cinco municípios – Palmas, Coronel Domingos Soares, Clevelândia, Mangueirinha e Honório Serpa – que juntos, geraram quase R$ 1,3 bilhão através da produção agropecuária no último ano. Ao todo, a população dessa região é estimada em 98,7 mil. Desses, 46,4 mil fazem parte do CadÚnico, cadastro que identifica as famílias de baixa renda e que se enquadram em parâmetros de pobreza, podendo ser beneficiadas através de programas de transferência de renda.

Avalia o professor, que a realidade microrregional é um retrato do Brasil, que necessita de uma reconfiguração de seu modelo econômico, direcionado “à igualdade, no resgate de uma sociedade homogênea, que não viva essas contradições tão acentuadas”.

Salienta que os números da região surpreendem pelo fato das áreas rural e urbana estarem próximas, com uma facilidade logística maior para a distribuição da alimentação. “Nos municípios pequenos deveria existir um equilíbrio, tanto na distribuição de renda, quanto no acesso das pessoas aos meios de produção”, afirma, destacando que o fortalecimento da agricultura familiar “pode ser o caminho para fechar essa conta, que não fecha por conta do contraste estrutural, que passa, não só pelo mercado de trabalho, mas também pelas condições de produção no campo”.

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